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| Quem começou - Maria do Céu Gonçalves |
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“Queres colaborar com Nuevo Futuro aquí em Portugal?”- foi a pergunta que me fez a Ana Vicente, a primeira vez que me encontrou estando eu recém-chegada a Lisboa, depois de vários anos vividos em Madrid. O meu “sim, quero” foi imediato.
A verdade é que não sabia no que me estava a meter, pois o projecto, que há tempos tinha sido trazido para ser montado em Portugal, jazia numa gaveta…
E do Palácio de Belém passou para a R. D. João de Castro (minha casa e primeira sede da
Novo Futuro), de onde saiu com pés para andar e nunca mais parar!
Não sabia nem por onde começar! Mas não tardei em perceber que o primeiro a fazer era “vender” o projecto a:
- colaboradores-voluntários, para constituir uma equipa de arranque,
- instituições não governamentais, para nos apoiarem na difícil tarefa de integração no
meio,
- instituições governamentais, dando uma imagem de credibilidade, competência,
segurança, para não só nos apoiarem financeiramente como também nos confiarem
as sua crianças, objectivo da nossa Associação,
- comunicação social, para nos darem a conhecer,
- empresas, instituições e particulares, para angariação de fundos.
Pelas suas características, o projecto teve muito boa aceitação: era inovador nos seus princípios e formas de funcionamento, existia em Espanha com bons resultados há mais de 30 anos e vinha ao encontro das muitas carências que Portugal tinha no campo do acolhimento estável e duradouro de crianças sem limites de idade, a quem oferecíamos un novo futuro, num pequeno lar familiar (6 a 8 crianças), privilegiando grupos de irmãos.
Foi longo o percurso, às vezes difícil, mas sempre gratificante e sobretudo envolvente:
o meu entusiasmo tinha que envolver todos os familiares e amigos, que tanto me apoiaram, em especial os que fizeram comigo esse caminho, cheio de momentos de êxitos, frustrações, alegrias, decepções! Recordo que numa determinada fase em que lutávamos contra o tempo, a burocracia, a falta de fundos, etc.,faziamos humor com o nome de um dos grandes impulsionadores – o António Papão –dizendo que o único que tinhamos era “um papão para assustar as criancinhas”!
E que difícil era conseguir uma assinatura da Srª. Dª. Maria Barroso, indispensável para avalizar todas as nossas iniciativas, para nos abrir tantas portas que, sem Ela, continuariam talvez fechadas. Já não sei bem se foi a convocatoria para a primeira Assembleia Geral da As. Novo Futuro que lhe dei a assinar durante uma sessão de felicitações, por motivo duma condecoração que acabava de receber. Aí me apresentei com os documentos debaixo do braço - “muitos parabéns” e já agora...
Queríamos andar tão depressa, que às vezes escorregávamos pelo caminho! Cheguei a uma reunião com o Ministro (da Solidariedade Social?), para evidentemente pedir o seu apoio, à qual nos precedia uma carta em que nos apresentávamos como IPSS; só que a data da reunião foi dada antes de nos ser concedido o referido estatuto. Que situação!
Ainda me lembro do sorriso do Ministro Ferro Rodrigues quando tive que confessar que tínhamos sido demasiado optimistas e que não esperávamos que demorasse tanto tempo o processo, mas que o tinha perfeitamente localizado: precisamente nas mãos do seu Secretário de Estado, por acaso presente na reunião. Vim depois a saber que os 6 meses que tardámos em conseguir o referido estatuto foi um tempo record, pois a média era de
2 anos. A nós pareceu-nos eterno! É que não podíamos passar à fase de arranque final,
ou seja:
- compra da casa, sua adaptação às nossas necessidades, recheio, etc.
- negociação dos acordos estatais, imprescindíveis como base financeira sólida e constante,
- escolha de educadores residentes nos lares,
- selecção das primeiras crianças que iríamos acolher – esta foi a tarefa mais penosa, pelo número enorme que tivemos que excluir entre tantíssimos necessitados.
Mas tudo se foi fazendo e chegou, por fim, o tão esperado dia de ir buscar o primeiro grupo de 4 irmãos que nos confiavam. Recebemo-los com alguns brinquedos com que jugaram antes de entrar em casa, altura em que a mais velhinha – a Sara – pôs a mão sobre o ombro do mais pequenino – o Israel, de apenas 2 anos – como que pondo-o sob a sua protecção! É indescritível a nossa emoção!! A casa ainda nem tinha a cozinha montada e tivémos que improvisar muito, mas cumprimos com as datas planeadas.
E justamente quando começávamos a ver os resultados de tantas e tantas horas de trabalho e dedicação, vi-me forçada, por razões de ordem familiar, a “retirar-me”, indo novamente viver para Madrid. Passei duma entrega total ao mais profundo vazio!
No entanto, fui tranquila, por saber que o projecto, que com tanto empenho tinha iniciado, estava em pleno funcionamento e entregue em muito boas mãos, como o demonstra o enorme e rápido crescimento que até hoje se tem verificado!.
Maria do Céu Gonçalves
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